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Metade dos consumidores com nome sujo não consegue sair dessa situação

Por: FCDL SÃO PAULO 1 de setembro de 2023
Metade dos consumidores com nome sujo não consegue sair dessa situação

Segundo uma pesquisa realizada pela Quaest, cerca de metade dos consumidores que possuem registros negativos em agências de proteção ao crédito, como o SPC e a Serasa, enfrentam dificuldades para regularizar sua situação financeira. De acordo com o levantamento, 56% dos cidadãos brasileiros já tiveram seus nomes incluídos nessas bases de dados, e surpreendentemente, 51% admitiram que ainda não conseguiram limpar seus registros. A pesquisa, conduzida pelo instituto, envolveu entrevistas presenciais com 2.029 indivíduos com 16 anos ou mais, realizadas no período de 10 a 14 de agosto. A margem de erro para esse levantamento é de 2,2 pontos percentuais, tanto para mais quanto para menos.

De acordo com os resultados da pesquisa, a maioria dos indivíduos que já teve problemas de inadimplência encontra-se dentro das faixas salariais de até dois salários mínimos (58%) e de dois a cinco salários mínimos (58%). Surpreendentemente, um percentual significativo (50%) também pertence à faixa de renda superior a cinco salários mínimos.

Entre aqueles que ainda possuem dívidas pendentes, 66% afirmaram estar sobrecarregados por múltiplas obrigações financeiras, e 72% relataram enfrentar dificuldades para quitá-las.

Geograficamente, a maior parte dessas situações de inadimplência é encontrada na região Centro-Oeste do país, representando 38% dos casos, seguida pelo Nordeste (35%), Sudeste (29%) e Sul (25%).

A consultora financeira Renata Cavalheiro explicou que diversos fatores contribuem para o elevado número de inadimplentes no Brasil.

“Nos últimos anos, observamos um aumento significativo na taxa básica de juros, conhecida como Selic, e um consequente aumento na inflação. Isso levou ao encarecimento de produtos, serviços e do crédito em geral”, explica a consultora financeira.

“Essa situação resultou em um custo mais elevado para as famílias ao fazer compras no supermercado e aumentou a necessidade de recorrer aos limites dos cartões de crédito, que, por sua vez, estão com taxas de juros mais altas. Isso criou um ciclo negativo, afetando significativamente o poder de compra das pessoas”, acrescenta a consultora.

Conforme os dados obtidos pela pesquisa da Quaest, o cartão de crédito é a principal causa de endividamento para brasileiros em diferentes faixas de renda: 37% para aqueles que ganham mais de cinco salários mínimos, 35% para os que ganham entre dois e cinco salários mínimos, e 31% para os que ganham até dois salários mínimos.

Cavalheiro destaca que o cartão de crédito não deve ser considerado um vilão. “Quando usado de forma responsável, o cartão de crédito pode ser uma ferramenta útil. No entanto, muitas famílias cometem o erro de não avaliar o impacto real do parcelamento, resultando em dívidas acumuladas. Além disso, algumas famílias dependem do limite do cartão como parte de sua renda”, alerta.

Outras despesas também afetam o orçamento dos entrevistados. O pagamento de imóveis, seja em forma de prestação, financiamento ou aluguel, representa 14% das dívidas, seguido por empréstimos bancários, que compõem 11% delas.

Quando analisamos o aspecto racial, observamos que 70% das pessoas que relataram ter muitas dívidas são pretas ou pardas, em comparação com 27% de pessoas brancas.

Até o mês de julho, a Serasa tinha registrado um total de 71,41 milhões de pessoas com dívidas em atraso. Cavalheiro observa que, em média, essas dívidas alcançam cerca de R$ 4.000.

“Pode parecer um valor modesto à primeira vista, mas é importante lembrar que o salário mínimo atual é de R$ 1.320. Para muitas famílias, honrar esses compromissos pode ser uma tarefa desafiadora”, explica.

Alexandre Ricco, um advogado e especialista em direito do consumidor, expressa preocupação com os números apresentados pela Quaest. Para ele, essa pesquisa “destaca a necessidade imediata de uma mudança de cultura em relação ao uso responsável do crédito. Isso não só para ajudar as pessoas a sair dessa situação que gera perdas financeiras pessoais e familiares, mas também para tornar as práticas de consumo mais eficazes e seguras”.

Com base nos dados da pesquisa realizada pela Quaest, foi constatado que o programa “Desenrola Brasil”, uma iniciativa do Ministério da Fazenda com o objetivo de reduzir o número de pessoas endividadas no país, recebeu uma avaliação positiva por parte de 70% dos entrevistados. Essa aprovação abrange tanto aqueles que possuem muitas ou poucas dívidas (73%), quanto aqueles que não têm dívidas (63%). Notavelmente, a taxa de aprovação é ainda mais alta, atingindo 79%, entre as pessoas que ainda não conseguiram quitar suas dívidas. De acordo com dados da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), o programa do governo federal já conseguiu renegociar um total de 1,3 milhão de dívidas, resultando em um montante de R$ 8,1 bilhões em dívidas renegociadas em apenas quatro semanas.

Ricco, ao comentar sobre programas como o Desenrola, destaca sua utilidade como ferramentas eficazes que promovem uma comunicação construtiva entre credores e devedores, incentivando uma abordagem colaborativa na resolução de questões financeiras.

De acordo com o levantamento da Quaest, 37% das pessoas conseguiram saldar suas dívidas por meio da renegociação do valor com as instituições bancárias, enquanto outros 25% optaram por renegociar para estender o prazo de pagamento.

Guilherme da Silva, mestre em economia graduado na Universidade Estadual Paulista (Unesp), enfatiza que a chave para evitar problemas financeiros, como a inadimplência, é manter uma compreensão realista da renda disponível.

Ele aconselha a começar por listar todos os gastos fixos mensais, como despesas de energia, água, moradia, alimentação, transporte e educação dos filhos. Em seguida, sugere uma análise dos gastos variáveis, questionando-se: “Tenho recursos disponíveis para gastos adicionais neste mês?”

Se a análise revelar que a renda não é suficiente para cobrir os gastos fixos, ele recomenda a adoção de mudanças de comportamento, como economizar água e energia, negociar o valor do aluguel ou procurar alternativas mais acessíveis, além de considerar outras reduções no conforto.

Para aqueles que enfrentam problemas de inadimplência e desejam recuperar sua situação financeira, Guilherme da Silva, um participante do projeto de extensão “Educação financeira para a promoção da cidadania financeira” da Unesp, oferece orientações claras.

Ele destaca a importância de priorizar o pagamento da dívida como a primeira medida. Além disso, sugere a possibilidade de reestruturar a dívida, após realizar uma análise realista de quanto é possível pagar mensalmente. Isso envolve negociações com a instituição credora, visando encontrar um acordo viável que não prejudique a sobrevivência do devedor.

Para auxílio gratuito, os consumidores podem buscar os Núcleos de Superendividamento do Procon, que oferecem suporte, ou aproveitar a parceria entre a Febraban e as defensorias públicas estaduais, que auxiliam na negociação de acordos entre consumidores e instituições financeiras.

Os dados, portanto, revelam um cenário desafiador, em que metade dos consumidores que se encontram em situação de inadimplência enfrentam dificuldades para sair dessa situação. Isso destaca a importância da educação financeira, da negociação de dívidas e do acesso a recursos de apoio, como os oferecidos por órgãos de defesa do consumidor e instituições financeiras. É fundamental que os consumidores estejam conscientes de suas finanças, busquem ajuda quando necessário e adotem medidas responsáveis para evitar o endividamento e, se possível, sair dele. Com o conhecimento e a ação adequada, é possível reverter essa situação e construir uma base financeira mais sólida para o futuro.

Fonte: diário do comércio

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